Prevenção e Diagnóstico

Como avaliar a função renal: exames, valores e quando fazer

A doença renal costuma ser silenciosa. Entenda quais exames pedir, como interpretar os resultados e quando repetir a avaliação.

Os rins filtram o sangue, controlam a pressão, o equilíbrio de sais e líquidos e a produção de células do sangue. O problema é que a doença renal costuma ser silenciosa: os sintomas só aparecem quando a perda de função já é avançada. Por isso, a forma mais segura de saber como estão seus rins é com exames, e não com sintomas. A boa notícia é que a avaliação é simples e, na maioria dos casos, resume-se a um exame de sangue e um exame de urina.

Os exames essenciais

1. Creatinina e taxa de filtração glomerular estimada (TFGe)

A creatinina é uma substância produzida pelos músculos e eliminada pelos rins. Quando os rins filtram menos, a creatinina sobe no sangue. O valor isolado, porém, diz pouco. O que interessa é a TFGe, calculada a partir da creatinina, da idade e do sexo por fórmulas validadas, como a CKD-EPI.

A TFGe indica, de forma aproximada, quanto os rins conseguem filtrar por minuto. Um valor acima de 90 mL/min/1,73 m² é considerado normal na maioria das pessoas jovens e saudáveis, e a TFGe diminui naturalmente com a idade.

2. Exame de urina e albuminúria

Este é o exame que mais se esquece e um dos mais importantes. A presença de albumina (proteína) na urina costuma ser o primeiro sinal de lesão renal, muitas vezes antes de a creatinina se alterar. O exame recomendado é a relação albumina/creatinina em amostra de urina, mais precisa que o exame de urina simples para detectar pequenas perdas.

O exame de urina de rotina (EAS) também mostra sangue, glóbulos brancos, cilindros e outros sinais que ajudam a identificar a causa do problema.

3. Cistatina C

É uma proteína produzida por todas as células do corpo e filtrada pelos rins. Como não depende da massa muscular, ajuda a confirmar a função renal quando a creatinina pode enganar, como em quem usa creatina, tem muita ou pouca massa muscular ou está perdendo peso rapidamente. Ela também pode ser combinada com a creatinina em uma fórmula, o que aumenta a precisão da estimativa.

4. Outros exames que complementam a avaliação

  • Ureia: varia com a alimentação, a hidratação e o uso de alguns medicamentos, por isso é menos específica que a creatinina.
  • Eletrólitos (sódio, potássio, cálcio, fósforo), bicarbonato e hemograma: mostram complicações da perda de função renal.
  • Ultrassonografia dos rins e vias urinárias: avalia tamanho, formato, cistos, pedras e obstruções.
  • Aferição da pressão arterial: a hipertensão pode ser causa e consequência da doença renal.
  • Biópsia renal: indicada em situações selecionadas, quando é preciso identificar a causa de uma alteração persistente.

Quando a creatinina pode enganar

A creatinina é útil, mas sofre influência de vários fatores além dos rins:

  • Massa muscular: pessoas musculosas podem ter valores mais altos; idosos, pessoas com pouca massa muscular ou em perda de peso rápida podem ter valores falsamente baixos.
  • Suplementação de creatina: pode elevar levemente a creatinina sem lesão renal.
  • Alimentação: uma refeição muito rica em carne cozida pode aumentar discretamente o valor.
  • Hidratação e exercício intenso: alteram temporariamente os resultados.
  • Alguns medicamentos: certos antibióticos e outros fármacos aumentam a creatinina sem reduzir a filtração de fato.

Por isso, uma creatinina "normal" não exclui doença renal, e uma creatinina "alterada" nem sempre significa perda de função. A interpretação deve considerar o conjunto: TFGe, albuminúria, cistatina C e o contexto clínico.

Como classificamos a doença renal crônica

Falamos em doença renal crônica (DRC) quando há alteração da função ou sinais de lesão renal por mais de 3 meses. A classificação combina dois eixos: a TFGe (estágio G) e a albuminúria (categoria A).

Quer ver isso calculado com os seus próprios exames? Use nossa calculadora de função renal gratuita: em poucos segundos ela estima sua TFGe, classifica o estágio e já mostra o risco de evolução.

Estágio TFGe (mL/min/1,73 m²) Significado
G190 ou maisFunção normal ou alta (há doença se houver lesão, como albuminúria)
G260 a 89Redução leve
G3a45 a 59Redução leve a moderada
G3b30 a 44Redução moderada a grave
G415 a 29Redução grave
G5Menos de 15Falência renal
Albuminúria (mg/g de creatinina) Categoria
Menos de 30A1: normal ou levemente aumentada
30 a 300A2: moderadamente aumentada
Mais de 300A3: gravemente aumentada

Quanto maior o estágio G e a categoria A, maior o risco de progressão da doença renal e de problemas cardiovasculares. Por isso os dois eixos são avaliados juntos.

Quem deve fazer a avaliação e com que frequência

A triagem anual com creatinina/TFGe e albuminúria é recomendada para quem tem:

  • Diabetes;
  • Hipertensão arterial;
  • Obesidade;
  • Doença cardiovascular;
  • Histórico familiar de doença renal;
  • Idade acima de 60 anos;
  • Histórico de lesão renal aguda, pedras nos rins ou infecções urinárias de repetição;
  • Doenças autoimunes;
  • Uso frequente de medicamentos que afetam os rins, como anti-inflamatórios.

Quem não tem fatores de risco também pode incluir esses exames no check-up periódico, a critério médico.

Sinais que merecem avaliação

Embora a doença renal seja frequentemente silenciosa, procure um médico se notar:

  • Urina espumosa, com sangue ou com mudança importante de volume;
  • Inchaço nos pés, tornozelos ou ao redor dos olhos;
  • Pressão alta de difícil controle;
  • Cansaço persistente, falta de apetite, náuseas ou coceira sem causa aparente;
  • Necessidade de urinar várias vezes à noite.

Esses sintomas não são específicos, mas justificam a realização dos exames.

Como se preparar para os exames

  • Siga a orientação do laboratório quanto ao jejum, que geralmente não é necessário para creatinina e urina.
  • Evite exercício intenso nas 24 horas anteriores, principalmente antes do exame de albumina na urina.
  • Informe todos os medicamentos e suplementos que usa, incluindo creatina.
  • Mantenha a hidratação habitual, sem exageros nem restrições no dia do exame.
  • Colete a urina conforme a orientação, de preferência a primeira da manhã, com higiene adequada.
  • Leve resultados anteriores para comparação, pois a evolução ao longo do tempo é tão importante quanto o valor isolado.

Em resumo

Exame O que mostra Ponto de atenção
Creatinina e TFGeCapacidade de filtração dos rinsInfluenciada por massa muscular, creatina e dieta
Albumina na urinaLesão renal precocePode se alterar antes da creatinina
Cistatina CFiltração, independente da massa muscularÚtil para confirmar quando a creatinina é duvidosa
Exame de urinaSangue, infecção e outros sinaisAjuda a identificar a causa
UltrassonografiaEstrutura dos rins e vias urináriasDetecta cistos, pedras e obstruções

Cuidar dos rins começa pela detecção precoce. Se você tem fator de risco, usa suplementos ou medicamentos que podem interferir nos exames, ou nunca avaliou a função renal, a consulta com um nefrologista permite interpretar os resultados no seu contexto e definir o melhor acompanhamento.

Referências

Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) CKD Work Group. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Int. 2024;105(4S):S117-S314.

Inker LA, Eneanya ND, Coresh J, et al. New creatinine- and cystatin C-based equations to estimate GFR without race. N Engl J Med. 2021;385(19):1737-1749. doi:10.1056/NEJMoa2102953

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Escrito por Dr. Pedro Mendes Filho
Nefrologista em Brasília · CRM-DF 15003 · RQE 10584
Coordenador de Nefrologia do Hospital Brasília e Diretor Científico da SBN-DF. Conheça o Dr. Pedro →