Doença Renal do Diabetes: causas, estágios e tratamento
A principal causa de doença renal crônica no mundo — e uma das mais preveníveis quando diagnosticada e tratada cedo, com tratamentos específicos para quem tem diabetes tipo 1 ou tipo 2.
A doença renal do diabetes é a lesão nos rins causada pelo diabetes mal controlado ao longo dos anos. Hoje é a principal causa isolada de doença renal crônica e de necessidade de diálise no mundo, incluindo no Brasil. A boa notícia é que seu curso costuma ser lento e, na maior parte do caminho, pode ser evitado ou desacelerado — com o controle adequado da glicemia e da pressão arterial, e com medicações que hoje sabemos que protegem o rim além do simples controle do diabetes.
Como o diabetes danifica os rins
O rim filtra o sangue através de milhões de glomérulos — novelos de pequenos vasos sanguíneos. O excesso de açúcar no sangue, mantido por anos, provoca alterações progressivas nessa estrutura: primeiro um período em que o rim filtra mais do que deveria, seguido pelo espessamento das paredes desses vasinhos e pelo acúmulo de tecido cicatricial dentro do glomérulo. Esse processo torna o filtro progressivamente mais permeável a proteínas e, com o tempo, menos capaz de filtrar o sangue.
Nem toda pessoa com diabetes desenvolve doença renal. O risco aumenta com o tempo de diabetes, o controle da glicemia ao longo dos anos, a presença de hipertensão associada e fatores individuais.
Como evolui: dos primeiros sinais à perda de função
A doença renal do diabetes costuma seguir uma progressão característica, embora nem sempre linear:
- Fase inicial: o rim pode até filtrar mais do que o normal, sem qualquer sinal perceptível.
- Albuminúria moderada: pequenas quantidades de proteína (albumina) começam a aparecer na urina — o primeiro sinal detectável, geralmente anos antes de qualquer sintoma.
- Albuminúria grave: a perda de proteína na urina aumenta, e a capacidade de filtração do rim começa a cair de forma mais evidente.
- Perda progressiva de função renal: declínio ao longo dos anos, podendo evoluir para doença renal crônica avançada e, em alguns casos, para diálise ou transplante.
Assim como em outras causas de doença renal crônica, a classificação combina o estágio da filtração renal com a quantidade de proteína perdida na urina — quanto mais avançados os dois, maior o risco de progressão e de problemas cardiovasculares.
Sintomas
A doença renal do diabetes costuma ser silenciosa por muitos anos. Quando os sintomas aparecem, geralmente indicam uma fase mais avançada:
- Inchaço (edema) nas pernas, tornozelos ou ao redor dos olhos;
- Urina com espuma, pelo excesso de proteína;
- Pressão arterial cada vez mais difícil de controlar;
- Cansaço e falta de apetite;
- Piora do controle do açúcar no sangue, mesmo sem mudança na medicação.
Por isso, o diagnóstico raramente depende de sintomas — depende de exames de rotina feitos regularmente.
Diagnóstico
O rastreio é feito com dois exames simples, recomendados pelo menos uma vez por ano para toda pessoa com diabetes:
- Relação albumina/creatinina na urina: detecta a perda de proteína antes de qualquer sintoma.
- Taxa de filtração glomerular estimada (TFGe): calculada a partir da creatinina no sangue, mostra a capacidade de filtração dos rins.
A biópsia renal não é necessária na maioria dos casos — o diagnóstico costuma se basear no tempo de diabetes, na presença de alterações características no olho (retinopatia) e no padrão típico de progressão. Ela é considerada quando há sinais atípicos, como perda de função muito rápida ou suspeita de outra causa associada.
Tratamento para quem tem diabetes tipo 2
Nos últimos anos, o tratamento da doença renal do diabetes tipo 2 mudou bastante, com novas classes de medicamentos que protegem o rim além do simples controle do açúcar no sangue. As diretrizes mais recentes (como os Standards of Care in Diabetes da American Diabetes Association) recomendam uma abordagem combinada:
- Remédios para pressão que também protegem o rim (IECA ou BRA): indicados para quem tem diabetes, pressão alta e perda de proteína na urina. Reduzem a pressão dentro do rim, a perda de proteína e a velocidade de progressão da doença.
- Inibidores de SGLT2: hoje são considerados tratamento de primeira linha para quem tem diabetes tipo 2 e ainda tem uma filtração renal razoável, podendo continuar sendo usados mesmo com alguma perda adicional de função. Reduzem a progressão da doença renal, internações por problemas cardíacos e o risco cardiovascular — com um efeito de proteção que vai além do simples controle da glicemia.
- Agonistas do receptor de GLP-1: indicados para quem não atinge as metas de controle glicêmico apenas com metformina e inibidores de SGLT2, ou como tratamento adicional pelos benefícios renais e cardiovasculares próprios. Em um grande estudo com um desses medicamentos (semaglutida), houve redução de cerca de 24% no risco de eventos renais graves em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal.
- Finerenona: um medicamento mais novo, que surge como possibilidade de tratamento adicional a partir dos resultados dos estudos FIDELIO-DKD e FIGARO-DKD. Esses estudos mostraram benefício em pessoas com diabetes tipo 2 que continuam perdendo quantidade significativa de proteína na urina mesmo já usando as medicações acima nas doses máximas toleradas, com função renal ainda preservada o suficiente e níveis de potássio no sangue dentro da faixa segura. Nesse cenário específico, a finerenona reduz a progressão da doença renal e o risco cardiovascular.
- Combinação de finerenona com inibidor de SGLT2: um estudo recente mostrou que usar as duas classes juntas reduz ainda mais a perda de proteína na urina do que cada uma isoladamente — cerca de 52% de redução em 6 meses.
- Metformina: pode ser mantida enquanto a função renal permitir, com ajuste de dose quando a filtração já está reduzida.
Completam o tratamento o controle da pressão arterial, do colesterol (com estatina) e do peso corporal.
Tratamento para quem tem diabetes tipo 1
No diabetes tipo 1, a base do tratamento é diferente. As classes mais novas de medicamentos (inibidores de SGLT2 e finerenona) ainda não têm indicação estabelecida como tratamento padrão nessa população — a finerenona já tem um primeiro estudo positivo (FIONA), mas ainda faltam estudos maiores que confirmem o benefício. Os pilares do tratamento continuam sendo:
- Controle intensivo da glicemia com insulina: um estudo de referência de longo prazo (DCCT/EDIC) mostrou que manter a glicemia bem controlada reduz o risco de perda de proteína na urina e de queda da função renal — e esse benefício persiste por anos, mesmo que o controle piore depois.
- Remédios para pressão que também protegem o rim (IECA ou BRA): recomendados para todo adulto com diabetes tipo 1 que tenha pressão alta ou perda de proteína na urina, reduzindo em cerca de metade o risco de a doença renal piorar. Essas duas classes não devem ser usadas juntas.
- Estatinas: para reduzir o colesterol e o risco cardiovascular, conforme o perfil de cada pessoa.
- Meta de pressão arterial: abaixo de 130/80 mmHg.
A finerenona teve seu primeiro resultado positivo em diabetes tipo 1 no estudo FIONA, que foi o primeiro ensaio clínico a mostrar benefício de um medicamento dessa classe (redução da proteína na urina) especificamente nessa população. Os inibidores de SGLT2 também têm resultados preliminares promissores em diabetes tipo 1. Ainda assim, faltam estudos maiores e de longo prazo que confirmem o benefício e a segurança dessas duas classes nesse grupo — por isso, por enquanto, elas não são indicadas como tratamento padrão para diabetes tipo 1.
Em resumo: as diferenças entre DM1 e DM2
| Tratamento | Diabetes tipo 2 | Diabetes tipo 1 |
|---|---|---|
| IECA/BRA | Sim, primeira linha se houver proteinúria ou pressão alta | Sim, primeira linha se houver proteinúria ou pressão alta |
| Inibidores de SGLT2 | Sim, primeira linha | Ainda não estabelecido |
| Agonistas de GLP-1 | Sim, tratamento adicional ou primeira linha | Não recomendado ainda |
| Finerenona | Sim, se proteinúria persistente | Não recomendado ainda |
| Controle intensivo da glicemia | Parte do tratamento geral | Pilar central do tratamento |
Como reduzir o risco
- Manter o controle da glicemia dentro da meta combinada com o médico, de forma sustentada ao longo dos anos;
- Medir a pressão arterial regularmente, não só no consultório;
- Fazer o rastreio anual com exame de urina (albuminúria) e de sangue (TFGe) desde o diagnóstico do diabetes;
- Não fumar;
- Manter acompanhamento conjunto com endocrinologista e nefrologista quando houver sinais de risco;
- Não interromper por conta própria remédios para pressão, diabetes ou proteção renal — muitos deles protegem o rim mesmo antes de qualquer sintoma aparecer.
Quando procurar um nefrologista
Toda pessoa com diabetes se beneficia de rastreio anual, mesmo sem sintomas. A avaliação com um nefrologista é especialmente recomendada diante de perda de proteína na urina confirmada, queda da taxa de filtração, pressão arterial de difícil controle, ou diabetes de longa data (geralmente acima de 5 a 10 anos) sem avaliação renal recente. Quanto mais cedo a doença renal do diabetes é identificada, maiores as chances de desacelerar sua progressão e preservar a função renal a longo prazo.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a avaliação individual com seu médico. Doses, indicações e critérios de uso das medicações citadas devem ser sempre definidos por um profissional, considerando o quadro clínico de cada pessoa.
Perguntas frequentes
Toda pessoa com diabetes desenvolve doença renal?
Não. O risco aumenta com o tempo de diabetes e o controle da glicemia ao longo dos anos, além de fatores como hipertensão associada e predisposição individual. Por isso o rastreio anual é recomendado para todos, mesmo sem sintomas.
O tratamento é igual para diabetes tipo 1 e tipo 2?
Não. No diabetes tipo 2, medicamentos mais novos como os inibidores de SGLT2, os agonistas de GLP-1 e a finerenona já têm benefício renal comprovado. No diabetes tipo 1, o tratamento se baseia principalmente no controle intensivo da glicemia com insulina e em remédios para pressão que protegem o rim, já que essas classes mais novas ainda não têm indicação estabelecida nessa população.
A doença renal do diabetes tem cura?
Não tem cura, mas seu curso é lento e, principalmente nas fases iniciais, pode ser desacelerado ou estabilizado com controle rigoroso da glicemia, da pressão arterial e com as medicações que protegem o rim.
Quais exames detectam o problema antes dos sintomas?
A relação albumina/creatinina na urina e a taxa de filtração glomerular estimada (TFGe), calculada a partir da creatinina no sangue. Ambos são recomendados pelo menos uma vez por ano para quem tem diabetes.
Tem diabetes e ainda não avaliou a função renal?
Agende uma consulta e converse com um nefrologista sobre os exames e tratamentos que protegem seus rins a longo prazo.
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Escrito por Dr. Pedro Mendes Filho
Nefrologista em Brasília · CRM-DF 15003 · RQE 10584
Coordenador de Nefrologia do Hospital Brasília e Diretor Científico da SBN-DF. Conheça o Dr. Pedro →
