Setembro Verde

Por Que a Doação de Órgãos Depende de uma Conversa em Família

Cada ano, milhares de brasileiros entram numa fila de espera que só anda com um gesto de generosidade. Entenda o que realmente decide uma doação de órgãos — e por que essa decisão passa, antes de tudo, pela sua família.

A fila que cresce em silêncio

No Brasil, mais de 73 mil pessoas aguardam atualmente por um transplante de órgãos ou tecidos — a maioria delas (cerca de 39 mil) esperando por um rim. Só no Distrito Federal, já foram registrados casos de pacientes que enfrentam anos de fila até que um órgão compatível apareça.

Para quem vive essa espera, o tempo não é apenas um número: é diálise três vezes por semana, é rotina hospitalar, é a vida colocada em pausa.

E cada pessoa que sai dessa fila para viver uma segunda chance depende de uma coisa que muita gente ainda não entende direito: a decisão de uma família, no momento mais difícil possível, de dizer sim.

O mito do "cartão de doador"

Um dos enganos mais comuns que vejo no consultório é achar que basta declarar em algum documento, aplicativo ou carteira de identidade que "sou doador de órgãos" para que isso seja cumprido automaticamente.

Não é assim que funciona. Desde a Lei 10.211/2001, que alterou a Lei dos Transplantes (Lei 9.434/1997), a legislação brasileira determina que a retirada de órgãos e tecidos para transplante depende da autorização da família — cônjuge ou parentes até o segundo grau — independentemente de qualquer manifestação prévia da pessoa falecida. Não existe mais o antigo "cartão de doador" com valor legal.

Na prática, isso significa uma coisa muito importante: a vontade de ser doador só se cumpre se a família souber dela e a confirmar no momento da doação. Se você nunca conversou sobre isso com quem toma essa decisão por você, sua vontade corre o risco de nunca ser conhecida.

Um doador, muitas vidas

A doação de órgãos é um dos poucos gestos médicos capazes de multiplicar uma vida em várias outras. Um único doador falecido pode viabilizar a doação de rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas e intestino, além de tecidos como córneas, pele, ossos e válvulas cardíacas — totalizando até oito vidas transformadas por uma só decisão.

Para quem está na fila do transplante renal, especificamente, um rim doado pode significar a saída da hemodiálise, a retomada do trabalho, dos planos, da rotina com a família. É a diferença entre esperar e viver.

Como começar essa conversa

Setembro é o mês de conscientização sobre a doação de órgãos, e a campanha Setembro Verde existe para lembrar de algo simples: a doação começa numa conversa, não num formulário. Algumas sugestões práticas para levar esse assunto para casa:

  • Diga em voz alta, para seu cônjuge, pais ou filhos: "Eu sou a favor da doação de órgãos, e é isso que eu quero se um dia for possível."
  • Escolha um momento tranquilo — não precisa ser solene. Pode surgir naturalmente numa conversa sobre saúde, sobre um caso na notícia, ou numa data como esta.
  • Pergunte também qual é a vontade de quem você ama. A conversa vale nos dois sentidos.
  • Lembre-se: a decisão pode ser revista a qualquer momento — o importante é que ela seja conhecida por quem vai precisar comunicá-la.

Essa conversa dura poucos minutos. Mas é ela — e só ela — que garante que uma vontade de doar se torne, de fato, uma vida salva.

Perguntas frequentes

Preciso assinar algum documento para ser doador de órgãos?

Não. Não existe mais um registro formal com valor legal no Brasil. O que decide é a autorização da família no momento da doação — por isso, conversar é mais importante do que documentar.

Quem decide se uma pessoa vai doar seus órgãos?

A família (cônjuge ou parentes até o segundo grau), com base na Lei 9.434/1997 alterada pela Lei 10.211/2001. A palavra final é sempre da família, mesmo que a pessoa tenha manifestado vontade em vida.

Quantas vidas um único doador pode salvar?

Até oito, considerando os principais órgãos (rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas e intestino), além de doações de tecidos como córneas, pele e ossos, que podem beneficiar ainda mais pessoas.

Existe limite de idade para ser doador de órgãos?

Não há um limite rígido de idade. A viabilidade de cada órgão é avaliada individualmente no momento da doação, considerando as condições clínicas — por isso a decisão da família é sempre acompanhada pela equipe médica responsável.

Já teve essa conversa com sua família?

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