Na maior parte das vezes, não existe um "primeiro sinal" claro — e entender por que isso acontece é o primeiro passo para se proteger.
Uma das perguntas mais comuns no consultório é: "doutor, mas eu não sinto nada, como assim meu rim está comprometido?". Essa reação faz todo sentido — e é justamente o que torna a doença renal crônica (DRC) perigosa. Os rins conseguem manter o corpo funcionando normalmente mesmo perdendo boa parte da sua capacidade. Em geral, sintomas claros só aparecem quando a função renal já caiu bastante, muitas vezes abaixo de 30% do normal.
Isso significa que esperar sintomas para procurar um médico pode significar procurar ajuda tarde demais para impedir a progressão da doença.
O rim tem uma enorme capacidade de compensação: quando uma parte perde função, o restante do tecido saudável assume parte do trabalho. Isso mantém os exames relativamente estáveis por anos, mesmo com a doença avançando lentamente por trás dos bastidores. É por isso que a doença renal crônica costuma ser chamada de "doença silenciosa" — na prática, o próprio corpo esconde o problema até que a reserva funcional se esgote.
Quando sintomas surgem, costumam ser inespecíficos — ou seja, também podem ter dezenas de outras causas, o que atrasa ainda mais o diagnóstico. Vale conhecê-los, mas sem se apoiar só neles:
Acúmulo de toxinas que os rins normalmente filtrariam pode causar fadiga que não melhora com descanso.
Sinal de retenção de líquido e sódio, que os rins comprometidos têm mais dificuldade de eliminar.
Pode indicar perda de proteína pela urina (proteinúria), um dos sinais mais precoces e importantes.
Os rins participam diretamente da regulação da pressão arterial — a relação é de mão dupla.
Urinar mais à noite, menos volume que o habitual, ou mudança na cor, merecem atenção.
Sintomas mais tardios, associados ao acúmulo de toxinas em estágios mais avançados.
Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma um problema renal — e a ausência deles também não descarta. O único jeito confiável de saber como estão seus rins é com exames de sangue e de urina.
Dois exames simples e baratos são responsáveis pela grande maioria dos diagnósticos precoces: a creatinina no sangue (usada para calcular a Taxa de Filtração Glomerular estimada, TFGe) e a relação albumina/creatinina na urina (RAC), que detecta perda de proteína antes mesmo da TFGe começar a cair. É por isso que exames de rotina, mesmo sem sintoma nenhum, são a ferramenta mais eficaz de prevenção que existe para a saúde renal.
Se você já tem esses exames em mãos, pode calcular sua função renal e ver a classificação de risco aqui. Se ainda não sabe quando pedir ou como interpretar, veja como avaliar a função renal: exames, valores e quando fazer.
Alguns grupos têm risco bem mais alto de desenvolver doença renal crônica silenciosa, e para eles o exame de rotina (mesmo sem sintomas) é ainda mais importante:
Neste vídeo, explico por que a doença renal costuma ser silenciosa e por que os exames de rotina fazem tanta diferença.
Sim, na grande maioria dos casos. Os rins não têm terminações nervosas sensíveis à perda gradual de função, diferente, por exemplo, de uma pedra nos rins, que causa dor aguda por obstrução. A perda progressiva da função renal costuma ser indolor.
Não necessariamente. A ausência de sintomas não descarta doença renal, principalmente nas fases iniciais. Se você tem fatores de risco (diabetes, hipertensão, histórico familiar), vale fazer exames de rotina mesmo sem sintomas.
Os dois exames básicos são a creatinina no sangue (para calcular a TFGe) e a relação albumina/creatinina na urina (RAC). Juntos, eles detectam a grande maioria dos problemas renais em fase inicial.
Varia de acordo com o risco individual. Pessoas sem fatores de risco costumam repetir anualmente nos exames de rotina; quem tem diabetes, hipertensão ou histórico familiar deve seguir a frequência orientada pelo médico, que costuma ser mais próxima.
Agende uma consulta e converse com um nefrologista sobre seus exames e seus fatores de risco.
Escrito por Dr. Pedro Mendes Filho
Nefrologista em Brasília · CRM-DF 15003 · RQE 10584
Coordenador de Nefrologia do Hospital Brasília e Diretor Científico da SBN-DF. Conheça o Dr. Pedro →