Sim, muitas mulheres com doença nos rins engravidam e têm bebês saudáveis. O segredo está no planejamento e no acompanhamento certo, antes, durante e depois da gestação.
Ter uma doença renal não impede, por si só, uma gravidez. Mas a gestação exige bastante dos rins, e os riscos variam muito de uma mulher para outra. Eles dependem principalmente de quatro fatores: a função dos rins, a quantidade de proteína na urina, o controle da pressão e se a doença está ativa ou controlada.
Por isso, a melhor gravidez para quem tem doença renal é a gravidez planejada.
Durante a gestação, o volume de sangue da mulher aumenta e os rins passam a filtrar muito mais do que o normal. Em rins saudáveis, essa adaptação acontece sem problemas. Em rins que já têm alguma doença, essa sobrecarga pode aumentar a proteína na urina, elevar a pressão e, em alguns casos, piorar a função renal.
A gravidez também pode revelar uma doença renal que ainda não tinha sido diagnosticada, por meio de exames de rotina do pré-natal.
Para a mãe, os principais riscos são a pré-eclâmpsia (pressão alta com sinais de sofrimento de órgãos, como rins e fígado), o descontrole da pressão e a piora da função dos rins. Para o bebê, os riscos mais comuns são o parto prematuro e o baixo peso ao nascer.
Esses riscos são menores quando a doença é leve, a pressão está controlada e há pouca proteína na urina. Eles aumentam nas fases mais avançadas da doença renal.
Nas fases iniciais da doença renal crônica, com pressão controlada e pouca proteína na urina, a gestação costuma evoluir bem com acompanhamento adequado. Nas fases mais avançadas, o risco de complicações e de perda definitiva de função renal é maior, e a decisão de engravidar precisa ser muito bem conversada. Mulheres em diálise também podem engravidar, mas a gestação exige um aumento importante da quantidade de diálise e uma equipe experiente.
Muitas mulheres têm gestações bem-sucedidas depois do transplante renal. Em geral, recomenda-se esperar pelo menos um ano após o transplante, com o rim funcionando bem e de forma estável, sem rejeição recente. Alguns imunossupressores, como o micofenolato, precisam ser substituídos com antecedência, porque podem causar malformações no bebê. Outros podem ser mantidos com segurança.
Importante: nunca pare ou troque os remédios do transplante por conta própria. Qualquer mudança é planejada com o nefrologista.
Na mídia: participei da reportagem do Correio Braziliense que conta a história de uma brasiliense que realizou o sonho de ser mãe depois do transplante de rim. Leia a reportagem →
No lúpus com acometimento dos rins (nefrite lúpica) e em outras glomerulopatias, como a nefropatia por IgA e a síndrome nefrótica, o ideal é engravidar com a doença controlada há pelo menos seis meses. Engravidar com a doença ativa aumenta o risco de crises e de complicações. Alguns remédios precisam ser trocados antes da gestação, enquanto outros, como a hidroxicloroquina no lúpus, costumam ser mantidos. Durante a gravidez, um desafio importante é diferenciar uma crise da doença de uma pré-eclâmpsia, que podem se parecer muito.
Mulheres com pressão alta antes da gravidez têm mais risco de pré-eclâmpsia. Alguns dos remédios de pressão mais usados, os da família dos que terminam em "-pril" e em "-sartana", não podem ser usados na gestação e devem ser trocados por opções seguras, de preferência antes de engravidar. Veja mais sobre remédios de pressão e os rins.
Para gestantes com doença renal, costuma ser indicado o uso de AAS em dose baixa a partir do início da gestação, para reduzir o risco de pré-eclâmpsia. Essa decisão é tomada em conjunto com o obstetra.
Acompanho a mulher com doença renal em três momentos, sempre em conjunto com o obstetra de alto risco.
A consulta de planejamento é a mais importante. Nela, avalio a função dos rins, a proteína na urina, a pressão e se a doença está controlada. Revisamos todos os remédios e trocamos com antecedência os que não podem ser usados na gestação. Conversamos de forma franca sobre os riscos e definimos juntos o melhor momento para engravidar.
Trabalho lado a lado com o obstetra de alto risco, trocando informações ao longo de toda a gravidez. A frequência das consultas depende da gravidade da doença e da evolução dos exames. Acompanho de perto a função renal, a proteína na urina e a pressão, ajusto os remédios quando necessário e fico atento aos primeiros sinais de pré-eclâmpsia ou de piora da doença.
O acompanhamento não termina com o nascimento do bebê. Reavalio a função dos rins, ajusto os remédios, escolhendo os que são compatíveis com a amamentação, e planejamos o cuidado a longo prazo. Mulheres que tiveram pré-eclâmpsia também têm mais risco de doença renal e cardiovascular no futuro e se beneficiam de acompanhamento.
Procure atendimento imediatamente se tiver:
Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta. Cada gestação é única, e as decisões sobre remédios e exames devem ser tomadas com sua equipe médica.
Na maioria dos casos, sim. O risco depende da função dos rins, da proteína na urina, da pressão e do controle da doença. Com planejamento e acompanhamento conjunto do nefrologista e do obstetra, muitas mulheres têm gestações bem-sucedidas.
Sim. Em geral, recomenda-se esperar pelo menos um ano após o transplante, com o rim funcionando bem e estável. Alguns imunossupressores precisam ser trocados antes da gestação, sempre com orientação médica.
Alguns sim, outros não. Os remédios da família dos que terminam em "-pril" e "-sartana" devem ser trocados por opções seguras, de preferência antes de engravidar.
Pode, principalmente nas fases mais avançadas da doença ou quando há muita proteína na urina e pressão descontrolada. Por isso o planejamento e o acompanhamento próximo fazem tanta diferença.
Converse com seu obstetra sobre a avaliação de um nefrologista. Quanto antes a alteração for investigada, mais seguro é o acompanhamento até o fim da gestação.
Agende uma consulta para planejar ou acompanhar sua gestação com segurança.
Escrito por Dr. Pedro Mendes Filho
Nefrologista em Brasília · CRM-DF 15003 · RQE 10584
Coordenador de Nefrologia do Hospital Brasília e Diretor Científico da SBN-DF. Conheça o Dr. Pedro →