De 1993 até hoje, a nefrologia ganhou quatro pilares de tratamento para proteger os rins. Veja o que cada um trouxe e o que vem pela frente.
Quem recebe o diagnóstico de doença renal crônica costuma ouvir, logo de cara, a palavra que mais assusta: diálise. Mas a história do tratamento mudou muito nas últimas três décadas. Hoje existem vários remédios capazes de retardar a perda da função dos rins, e quanto mais cedo o cuidado começa, maior a chance de manter os rins funcionando por muitos anos.
Até o início dos anos 1990, o tratamento se resumia basicamente a controlar a pressão e o açúcar no sangue. Desde então, grandes estudos mostraram que alguns remédios protegem o rim de forma direta, além desse controle. Hoje falamos em quatro pilares de tratamento, que podem ser combinados conforme o caso de cada pessoa.
O primeiro grande marco foi um estudo com o captopril, um remédio da classe dos IECA (inibidores da enzima conversora de angiotensina), em pessoas com diabetes tipo 1 e doença nos rins. O captopril reduziu pela metade o risco de morte, diálise ou transplante, e esse benefício não dependia apenas da queda da pressão. Foi a primeira prova clara de que um remédio podia proteger o rim por si só.
Em 2001, dois estudos, o RENAAL (com losartana) e o IDNT (com irbesartana), mostraram que os BRA (bloqueadores do receptor da angiotensina) também retardam a progressão da doença renal em quem tem diabetes tipo 2. IECA e BRA formam, juntos, o primeiro pilar do tratamento e continuam sendo a base até hoje, principalmente quando há proteína (albumina) na urina.
As gliflozinas nasceram como remédios para diabetes, mas surpreenderam ao proteger os rins. Três estudos foram decisivos: o CREDENCE (canagliflozina, 2019), o DAPA-CKD (dapagliflozina, 2020) e o EMPA-KIDNEY (empagliflozina, 2022). Os dois primeiros foram interrompidos antes do previsto porque o benefício ficou evidente. O mais importante: a proteção apareceu em pessoas com e sem diabetes, o que fez das gliflozinas o segundo pilar.
A finerenona age sobre o receptor da aldosterona, um hormônio que favorece inflamação e cicatrização (fibrose) nos rins e no coração. Nos estudos FIDELIO-DKD (2020) e FIGARO-DKD (2021), ela reduziu a progressão da doença renal e as complicações cardiovasculares em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, somando-se ao tratamento que elas já faziam. É o terceiro pilar.
Em 2024, o estudo FLOW foi o primeiro a avaliar um remédio da classe GLP-1 tendo os rins como objetivo principal. Em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, a semaglutida semanal reduziu em cerca de 24% os eventos renais graves, como queda importante da função dos rins, necessidade de diálise ou morte por causa renal. Esse é o quarto pilar. Falo mais sobre essa classe em canetas emagrecedoras e o rim.
A pesquisa não parou. Entre as apostas mais avançadas estão os inibidores da aldosterona sintase, como o baxdrostat e o vicadrostat, que reduzem a produção da aldosterona na origem. Em estudo de fase 2, o vicadrostat reduziu a albumina na urina em cerca de 40%. Há também grandes estudos testando combinações de remédios e novas moléculas.
Importante: esses tratamentos ainda estão em estudo e não estão aprovados para a doença renal crônica. São uma boa notícia para o futuro, mas não substituem o que já funciona hoje.
| Pilar | O que acrescentou |
|---|---|
| IECA e BRA (desde 1993 e 2001) | Base do tratamento; protegem o rim além da pressão, principalmente quando há albumina na urina |
| Gliflozinas (2019 a 2022) | Retardam a doença renal em pessoas com e sem diabetes |
| Finerenona (2020 e 2021) | Proteção adicional dos rins e do coração no diabetes tipo 2 |
| Semaglutida (2024) | Menos eventos renais graves no diabetes tipo 2 com doença renal |
| Em estudo | Inibidores da aldosterona sintase, combinações e novas moléculas |
Nenhum desses remédios funciona sozinho. Eles se somam ao controle da pressão, da glicose e do peso, à alimentação adequada e a não fumar. E a escolha de quais usar, em que dose e em que ordem é individual: depende da causa da doença renal, do estágio, dos exames e dos outros remédios que a pessoa já toma.
O ponto central é que, quanto mais cedo a doença é identificada, mais tempo esses pilares têm para agir. Se você já tem exames, pode começar pela calculadora de função renal.
Conteúdo educativo. Não substitui a consulta médica.
Preparei um vídeo curto, com o Kido, que resume essa linha do tempo. É ideal para assistir e compartilhar com quem tem doença renal crônica.
Assistir no YouTube: a evolução do tratamento da doença renal crônica
Na maioria dos casos, não. Mas tem controle. O objetivo do tratamento é retardar a perda da função dos rins, proteger o coração e evitar ou adiar ao máximo a necessidade de diálise.
Hoje são quatro pilares: IECA ou BRA, gliflozinas, finerenona e semaglutida. Nem todos são indicados para todas as pessoas. A escolha depende da causa da doença, do estágio e dos exames, e é feita com o nefrologista.
Sim. IECA e BRA são usados em várias causas de doença renal, principalmente quando há albumina na urina, e as gliflozinas mostraram benefício em pessoas com e sem diabetes. A finerenona e a semaglutida foram estudadas em quem tem diabetes tipo 2.
A semaglutida reduziu eventos renais graves em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica no estudo FLOW. Isso não significa que ela seja indicada para todos, e o uso deve ser avaliado caso a caso.
Vale. Mesmo em estágios mais avançados, os tratamentos podem desacelerar a perda da função renal e ganhar tempo. Nessa fase, o acompanhamento com o nefrologista também ajuda a planejar os próximos passos com calma.
Quando a creatinina ou a taxa de filtração estiverem alteradas, quando houver albumina ou proteína na urina, ou em quem tem diabetes, pressão alta ou histórico familiar de doença renal. Quanto mais cedo, mais os tratamentos conseguem proteger os rins.
Meu foco é cuidar do seu rim antes que ele dê sinais. Agende uma consulta e vamos montar juntos o plano de proteção dos seus rins.
Escrito por Dr. Pedro Mendes Filho
Nefrologista em Brasília · CRM-DF 15003 · RQE 10584
Coordenador de Nefrologia do Hospital Brasília e Diretor Científico da SBN-DF. Conheça o Dr. Pedro →