Alimentação e Saúde Renal

Café faz mal para os rins?

O que a ciência mostra sobre o consumo de café e a saúde renal, quantas xícaras são adequadas e quem precisa de mais cuidado.

É uma das dúvidas mais frequentes no consultório: "doutor, o café estraga o rim?". A resposta curta é que, em pessoas com rins saudáveis, o consumo moderado de café, em geral de 1 a 3 xícaras por dia, não só não faz mal como parece estar associado a menor risco de doença renal crônica. Quem já tem doença renal, pressão alta mal controlada ou outras condições específicas precisa de uma orientação individualizada.

O que os estudos mostram sobre café e rins

Uma metanálise que reuniu 12 estudos, com mais de 500 mil participantes, encontrou que quem consome café tem cerca de 14% menos risco de desenvolver doença renal crônica (RR 0,86). O benefício foi maior entre quem tomava duas ou mais xícaras por dia. A mesma análise observou menor risco de chegar à doença renal terminal (cerca de 18% menos), menos albumina na urina e menor mortalidade ligada à doença renal.

Estudos de randomização mendeliana, um método que usa variações genéticas para reduzir o efeito de outros fatores, reforçam esse achado: cada xícara adicional de café por dia esteve associada a menor risco de doença renal crônica em estágios 3 a 5 e a melhor taxa de filtração glomerular estimada.

Importante: a maior parte dessas evidências é observacional. Elas mostram associação, não garantem que o café, sozinho, proteja os rins. Por isso o café não é tratamento, e ninguém deve começar a tomar café por causa dos rins.

Por que o café pode ajudar?

Os mecanismos propostos incluem a ação antioxidante e anti-inflamatória da cafeína e de outros compostos do grão, que reduzem o estresse oxidativo no rim. Há ainda efeitos sobre vias de proteção celular em situações de falta de oxigênio no tecido renal.

Café dá pedra nos rins?

Pelo contrário, na maioria dos estudos. Análises de randomização mendeliana mostram que maior consumo de café e de cafeína está associado a menor risco de cálculos renais: para um aumento de 50% no consumo de café, o risco foi cerca de 40% menor (OR 0,60). O leve efeito diurético aumenta o volume de urina e ajuda a diluir as substâncias que formam as pedras.

Existe, porém, um ponto de atenção. A cafeína também aumenta a eliminação de cálcio na urina, e isso pode ser relevante em quem já forma pedras de oxalato de cálcio, principalmente com doses acima de cerca de 360 mg de cafeína por dia (algo em torno de 4 xícaras). Quem tem pedras de repetição deve evitar exageros e manter a ingestão de água em dia, como explico em Pedra nos rins.

Quantas xícaras por dia?

A evidência favorece um consumo moderado, geralmente de 1 a 3 xícaras por dia, como parte de um hábito alimentar saudável. Acima disso os benefícios deixam de ser claros, e em alguns grupos o excesso pode ser prejudicial. Uma coorte de idosos com síndrome metabólica, por exemplo, mostrou maior queda da função renal em quem tomava mais de 2 xícaras de café cafeinado por dia.

Quem deve ter mais cuidado

Converse com seu nefrologista sobre a quantidade ideal de café se você:

  • Tem doença renal crônica avançada (estágios 4 e 5) ou faz diálise;
  • Tem pressão alta mal controlada ou palpitações, já que a cafeína pode elevar a pressão de forma transitória;
  • Já teve pedras nos rins, especialmente de oxalato de cálcio;
  • É idoso e tem diabetes, obesidade ou síndrome metabólica;
  • Usa medicamentos que interagem com a cafeína ou tem arritmias.

Café e doença renal crônica: precisa cortar?

Nos estágios 1 a 3, o consumo moderado costuma ser liberado após avaliação individual. Nos estágios 4 e 5 e na diálise, a conversa muda: entram em jogo a restrição de líquidos, o controle de potássio e o de fósforo. O café preto tem pouco potássio, cerca de 116 mg por xícara, mas esse valor precisa entrar na conta da dieta, junto com o volume de líquido do dia. Veja também o que o doente renal crônico não pode comer.

O que realmente pesa: o café ou o que vai nele?

O café preto, coado, em prensa francesa ou em outros métodos de filtragem, não oferece risco aos rins. O problema costuma estar no que se adiciona. Cremes em pó (creamers), xaropes e grandes volumes de leite em bebidas de cafeterias podem trazer açúcar em excesso e fósforo inorgânico, que é muito bem absorvido pelo organismo, além de potássio. Para quem tem doença renal, essa é uma carga que passa despercebida.

Em resumo

Situação Orientação geral
Rins saudáveis 1 a 3 xícaras por dia; associado a menor risco de doença renal e de pedras
Doença renal crônica, estágios 1 a 3 Consumo moderado costuma ser liberado, com avaliação individual
Doença renal crônica, estágios 4 e 5, e diálise Entra na conta de líquidos, potássio e fósforo; definir a dose com o nefrologista
Pedras de oxalato de cálcio Sem exageros (evitar mais de cerca de 4 xícaras) e boa hidratação
Hipertensão mal controlada Atenção à pressão; com a pressão controlada, o café não costuma ser agravante

Se você tem dúvidas sobre quanto café é adequado para o seu caso, a avaliação com um nefrologista permite liberar o hábito com segurança ou ajustar a quantidade à sua função renal.

Conteúdo educativo. Não substitui a consulta médica.

Vídeos: café faz mal para os rins?

Preparei dois vídeos sobre o tema. O primeiro é um resumo rápido, ideal para ver e compartilhar. O segundo é a conversa completa no canal do YouTube, com mais detalhes sobre pressão arterial e doença renal.

Resumo em 1 minuto, no Instagram.

Assistir no YouTube: Café faz mal para os rins e a pressão?

Perguntas frequentes sobre café e rins

Café faz mal para os rins?

Em pessoas com rins saudáveis, o consumo moderado (1 a 3 xícaras por dia) não faz mal e está associado a cerca de 14% menos risco de doença renal crônica nos estudos populacionais. Em quem já tem doença renal, a quantidade deve ser individualizada.

Café dá pedra nos rins?

Na maioria dos estudos, o café está associado a menos pedras, e não a mais. O efeito diurético ajuda a eliminar os cristais. Quem já forma pedras de oxalato deve evitar exageros e manter boa ingestão de água.

Quem tem doença renal crônica precisa cortar o café?

Nos estágios 1 a 3, o consumo moderado costuma ser liberado após avaliação. Nos estágios 4 e 5 e na diálise, é preciso considerar o volume de líquidos, o potássio e o fósforo da dieta, e a quantidade é definida junto com o nefrologista.

O café força os rins ou causa desidratação?

A cafeína tem um efeito diurético leve no início, mas quem toma café com regularidade desenvolve tolerância. Os rins não são "forçados", e o líquido do café conta para a hidratação do dia.

O aumento da pressão causado pelo café acelera o dano renal?

O aumento da pressão provocado pela cafeína é discreto, dura poucas horas e tende a diminuir com o uso habitual. Com a pressão bem controlada, o café não costuma ser um agravante. Em hipertensos de difícil controle ou com doença renal avançada, vale individualizar.

O jeito de preparar o café faz diferença para os rins?

O que mais importa é o que se adiciona. O café preto, coado ou em prensa francesa, não oferece risco. Cremes em pó, xaropes e muito leite podem trazer açúcar, fósforo inorgânico e potássio em excesso, o que pesa para quem tem doença renal.

Tem dúvidas sobre café e a saúde dos seus rins?

Agende uma consulta e converse com um nefrologista sobre a quantidade de café mais adequada para o seu caso.

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Escrito por Dr. Pedro Mendes Filho
Nefrologista em Brasília · CRM-DF 15003 · RQE 10584
Coordenador de Nefrologia do Hospital Brasília e Diretor Científico da SBN-DF. Conheça o Dr. Pedro →