Obesidade, diabetes, pressão alta, doença renal e doença do coração costumam andar juntas. Entender essa ligação ajuda a agir cedo e a proteger rins e coração ao mesmo tempo.
A síndrome cardiovascular-renal-metabólica (CKM, na sigla em inglês) descreve a ligação entre três grupos de problemas: o excesso de peso e as alterações do metabolismo (como diabetes, pressão alta e colesterol), a doença renal crônica e a doença do coração e dos vasos. Ela é dividida em cinco estágios, do 0 (saúde ideal) ao 4 (doença cardiovascular já instalada), e a ideia central é agir cedo para evitar a progressão. O tratamento combina mudança de estilo de vida com medicamentos que protegem coração e rins ao mesmo tempo, definidos conforme o estágio e o risco de cada pessoa.
É um espectro de conexões entre fatores de risco metabólicos, doença renal crônica (DRC) e doença cardiovascular (DCV) [1]. Em vez de tratar cada problema isoladamente, a diretriz norte-americana publicada em 2026 pelas sociedades de cardiologia, diabetes e nefrologia (AHA, ACC, ADA e ASN) recomenda enxergar essas condições como um conjunto e classificá-las em estágios, em crianças e adultos, para orientar a prevenção e o tratamento [1].
Quando a relação é direta entre coração e rins, com um órgão provocando a doença no outro, fala-se em síndrome cardiorrenal.
Excesso de gordura corporal, diabetes tipo 2, hipertensão e triglicerídeos altos.
Avaliada pela taxa de filtração (TFGe, no exame de sangue) e pela albumina na urina.
Placas nas coronárias, insuficiência cardíaca, AVC e arritmias.
Os três sistemas compartilham causas e se influenciam: o excesso de gordura corporal, a glicose alta, a pressão alta e as alterações do colesterol sobrecarregam os rins e os vasos, e a doença renal, por sua vez, aumenta o risco para o coração [1][2]. Por isso, o risco de eventos cardiovasculares cresce de forma progressiva à medida que a pessoa avança dos estágios iniciais para os mais avançados [2].
A vantagem dessa visão é que ela permite agir antes da doença instalada. Nos estágios 1 a 3, o objetivo é evitar o acúmulo de fatores de risco e a progressão para estágios mais graves, com apoio a hábitos de vida saudáveis desde o estágio 0 [7]. Se você tem diabetes, vale ler também sobre a doença renal do diabetes.
A classificação reflete o aumento do risco cardiovascular conforme a síndrome avança [1]:
Peso e cintura adequados, glicose, pressão e colesterol normais, sem doença renal e sem doença cardiovascular.
IMC de 25 kg/m² ou mais (23 ou mais em pessoas de ascendência asiática), ou cintura de 88 cm ou mais em mulheres e 102 cm ou mais em homens, ou glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL, ou HbA1c entre 5,7% e 6,4%, sem outros fatores de risco metabólico nem doença renal.
Pressão de 130/80 mmHg ou mais (ou uso de remédio para pressão), triglicerídeos de 150 mg/dL ou mais, síndrome metabólica, diabetes tipo 2 (glicemia de jejum de 126 mg/dL ou mais, ou HbA1c de 6,5% ou mais) e/ou doença renal crônica de risco moderado a alto.
Sinais no coração ainda sem sintomas: escore de cálcio coronariano de 100 ou mais, NT-proBNP de 125 pg/mL ou mais, troponina elevada, ou situações de risco equivalente, como doença renal de risco muito alto (por exemplo, estágios G4 e G5) ou risco de 20% ou mais em 10 anos pelo escore PREVENT.
Doença das coronárias, insuficiência cardíaca, AVC, doença arterial periférica ou fibrilação atrial. Divide-se em 4a (sem insuficiência renal avançada) e 4b (com insuficiência renal avançada, estágio G5 ou diálise).
Quanto mais alto o estágio, maior o risco de eventos cardiovasculares [1][2].
A diretriz recomenda estimar o risco com o escore PREVENT, que calcula a chance de a pessoa ter, em 10 e em 30 anos, doença cardiovascular aterosclerótica, insuficiência cardíaca e doença cardiovascular total [1]. Uma novidade importante é que ele inclui a função dos rins no cálculo. Dois pontos de corte orientam a conduta [1]:
ou mais de risco em 10 anos indica que vale priorizar o tratamento com medicamentos.
ou mais de risco em 10 anos define o estágio 3.
A avaliação também inclui, de forma sistemática, os fatores de risco da síndrome CKM e os determinantes sociais de saúde, como acesso a alimentação, moradia e cuidado [1].
O tratamento avança por estágio, da prevenção no estágio 0 ao cuidado intensivo no estágio 4, e usa medicamentos que protegem coração e rins ao mesmo tempo [3]. Na prática, a diretriz destaca três frentes [1]:
Avaliação pelo IMC e pela circunferência abdominal, com apoio à mudança de estilo de vida e, quando indicado, medicamentos para obesidade ou cirurgia bariátrica. Veja também o que se sabe sobre canetas emagrecedoras e os rins.
As glifozinas (inibidores de SGLT2, como dapagliflozina e empagliflozina) e/ou os medicamentos baseados em GLP-1 (como semaglutida e tirzepatida) são preferidos pelo benefício para o coração e para os rins. A escolha considera as outras doenças da pessoa, como doença renal, doença das coronárias, insuficiência cardíaca, obesidade e gordura no fígado associada ao metabolismo (MASLD).
A doença é caracterizada pela taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) e pela relação albumina/creatinina na urina. Em quem tem DRC com diabetes tipo 2 ou albuminúria (perda de albumina na urina), a primeira linha é a combinação de um bloqueador do sistema renina-angiotensina (IECA ou BRA, como enalapril ou losartana) com uma glifozina. Se a albuminúria persistir, acrescenta-se a finerenona (um antagonista mineralocorticoide não esteroide) ou um medicamento com GLP-1. Saiba mais em proteína na urina tem tratamento? e remédio de pressão alta estraga o rim?
A Sociedade Americana de Nefrologia reforça que essas classes podem ser iniciadas ao mesmo tempo ou em sequência rápida, por decisão compartilhada entre médico e paciente, para evitar a chamada inércia terapêutica, que é demorar a ajustar o tratamento [5]. A combinação de IECA ou BRA com glifozina reduz a pressão dentro dos filtros do rim e a sobrecarga dos túbulos renais, o que protege os rins e reduz eventos de insuficiência cardíaca mais do que cada classe sozinha [6].
A escolha dos medicamentos e das doses é individual. Não inicie, troque ou suspenda nenhum deles sem orientação médica.
A diretriz recomenda um modelo de cuidado interdisciplinar, com uma pessoa ou equipe de referência que coordene o acompanhamento [1]. Isso faz sentido porque a síndrome envolve várias áreas, como nefrologia, cardiologia, endocrinologia e nutrição. Entre os pontos que mais pesam no resultado estão o controle do peso, da glicose e da pressão, o acompanhamento da função renal com exames de sangue e de urina e a revisão periódica do risco cardiovascular [1].
Pessoas com obesidade, diabetes, pressão alta, colesterol alterado ou doença cardíaca se beneficiam de avaliar os rins mesmo sem sintomas, porque a doença renal inicial costuma ser silenciosa. Dois exames simples fazem essa triagem:
Mostra quanto os rins estão filtrando. Você pode estimar a sua na nossa calculadora de função renal.
Detecta perda de albumina na urina, um dos primeiros sinais de lesão renal.
Entenda os resultados em como avaliar a função renal. Quem já tem doença renal crônica ou albuminúria deve manter acompanhamento regular. Procure atendimento sem demora se surgirem falta de ar, inchaço que aumenta rapidamente ou queda importante na quantidade de urina.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é avaliado de forma individual.
Não. A síndrome metabólica é um conjunto de fatores de risco (cintura aumentada, pressão, glicose e gorduras alteradas). A síndrome CKM é mais ampla: inclui esses fatores e também a doença renal e a doença cardiovascular, organizados em estágios.
Pela classificação, sim: diabetes tipo 2 ou hipertensão já colocam a pessoa pelo menos no estágio 2. Isso não é motivo de alarme, e sim um sinal para avaliar os rins e o coração e ajustar o tratamento cedo.
A creatinina no sangue, com cálculo da taxa de filtração (TFGe), e a relação albumina/creatinina na urina. Os dois juntos definem o estágio e o risco da doença renal crônica.
Em parte, sim. Perder peso, controlar glicose e pressão e usar os medicamentos indicados podem reduzir o risco e, em alguns casos, reverter alterações dos estágios iniciais. Nos estágios avançados, o objetivo é frear a progressão e evitar eventos.
O cuidado ideal é em equipe. O nefrologista cuida dos rins e de medicamentos que protegem rins e coração, em conjunto com cardiologista, endocrinologista e nutricionista, com um profissional de referência coordenando o acompanhamento.
Agende uma avaliação em Brasília para checar seus rins e montar um plano que proteja rins e coração ao mesmo tempo.
Agendar consultaEscrito por Dr. Pedro Mendes Filho
Nefrologista em Brasília · CRM-DF 15003 · RQE 10584
Coordenador de Nefrologia do Hospital Brasília e Diretor Científico da SBN-DF. Conheça o Dr. Pedro →